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sábado, 21 de maio de 2016

Como é que te chamas? FALIDA

Numa das tardes desta semana que passou, fui ver a montra da loja como sempre faço. 
Gosto de olhar para as grandes janelas onde se expõem os produtos das formas mais atractivas para cativar os clientes a entrar na loja. Também aproveito para apanhar ar/ pó da rua, invés do AC sempre ligado.
Enquanto mirava o que já conheço e dispus da forma que melhor sei, um rapazito com uns 25 anos, sem dentes, mas com a cara muito simpática aproximou-se. Como era alto e encorpado os meus "amigos" de rua debitaram logo um: "madrinha está tudo bem?", ao qual eu respondi que por enquanto sim.
O rapazito, novo naquelas bandas perguntou-me: "como te chamas madrinha?". Eu respondi sinceramente: "Falida, o meu nome é Falida".
Ele como não tinha dentes, perguntou-me novamente: "Não entendi madrinha, tu chamas-te Flida? Flipa, Felida?".
Eu expliquei-lhe o porquê do meu nome sui generis. Quando cheguei a Luanda a primeira vez e me davam pocket money em dólares, trocava-se na rua 1 dólar por 100 Akz. Na altura ainda tinha direito a ajudas de fim-de-semana. 
Actualmente, o "pilim" vem em Akz e com o câmbio actual de rua são necessários 500 Akz para comprar 1 dólar. Foi o que ouvi dizer porque é proibido comprar divisas na rua...
Ora, o Kwanza está tão desvalorizado que a actual mesada para comer e supostamente viver, não chega nem a meio do mês. Pois... por isso lhe disse que o meu nome é Falida.
Quando há 4 anos vivia bem e normalmente, sem grandes abusos, mas bem, actualmente não tenho dinheiro suficiente para chegar ao final do mês.
No meu país sempre tive as minhas contas muito bem geridas e sempre vivi e sobrevivi muito bem. Mas, actualmente, até no meu país tenho que ter cuidado com as despesas e conter-me para não gastar em coisas supérfluas e viagens que tanto gosto.
Pois, a par do Kwanza estar bastante desvalorizado, os bancos também não têm divisas para que sejam possíveis as transferências de ordenado acontecerem. 
Resumindo, não tenho Kwanzas cá e não tenho Euros lá. Lá, onde eu quero gastar quando for de férias. Lá, onde eu quero ficar sempre que lá ponho os pés. Lá, onde já fui feliz e tive que sair por não haver euros e trabalho para mim. Enfim...
Pelo menos o que esta terra me ensinou foi a esperar, esperar muito que as coisas acontecessem. Espero tanto que qualquer dia desespero. 
Ora, como não tenho Akz cá, como é que vivo? Exacto! Vou trocando com colegas Akz por euros em Portugal. Sim, estou a gastar do meu ordenado que não recebo há quase 4 meses, ou melhor, estou a gastar das minhas poupanças.
A vida num país em crise não é fácil, mas acreditem que viver num país estrangeiro em crise ainda é pior. Vou contando os dias, os meses até me fartar de vez...
Um dia será o dia e nesse dia eu brindarei de felicidade.


Ass.: Dora Sintra.