domingo, 15 de maio de 2016

Adopção... um dia.

"Mamã, hoje vais trazer comida ou vais dar 100 akz?" - estas são as palavras que ouvia todos os dias quando passava pelo humilde Adilson a caminho do almoço.
O Adilson tem 8 anos, com corpo de 5. É um menino muito giro, perfeitinho, pequenino, com voz de bebé e angolano. Um dos dias que passei para almoçar, ele não estava no sítio do costume a engraxar e limpar o pó dos sapatos dos transeuntes... estranhei, fiquei preocupada e perguntei a um colega de profissão dele, o "Paizinho", o que lhe tinha acontecido. O Paizinho lá disse que na noite anterior devia ter apanhado tanto do próprio pai que provavelmente não iria aparecer no "trabalho" tão cedo, ou simplesmente estaria doente.
Fiquei a pensar no pequeno Adilson, que nomeei como o meu Pedrinho antes de saber o nome dele, esperei que ele estivesse a ser tratado pela mãe que também não queria saber dele, ou algum irmão que tivesse pena dele e não o deixasse desamparado.



Nunca mais o vi, o meu Pedrinho, aquele menino que se pudesse levava-o para casa, dava-lhe um banho, proporcionava-lhe um óptimo repasto e vestia-o com roupa confortável e limpa... para sempre.
Como o Pedrinho, existem muitos meninos que têm pais, têm casa (algumas de lata), têm profissão como engraxadores, raramente vão à escola e comem quando têm a sorte de ter dinheiro para tal.
Aquele menino que eu chamava todos os dias de filho desapareceu. Fiquei triste. Deu-me a leve ilusão de cuidar de uma criança, quando tantas outras precisam também.
De qualquer maneira, tenho consciência que não posso nem consigo sequer ajudar todos os meninos do Mundo, tal como queria.
Quando conheci pela primeira vez o Pedrinho tive vontade de o adoptar, outra questão estranhamente difícil. Devido a esse facto, perguntei ao Paizinho se ele tinha família e se ía à escola, qual a vida dele. Daí é que me apercebi, não sei se é verdade ou não, que o Pedrinho era mais uma criança sozinha, com pais ausentes e quando apareciam era para o agredir, aquele menino tão querido, tão fofinho.
Infelizmente, para adoptar uma criança, seja no próprio país ou noutro, é sempre muito difícil, ou quase impossível pelo tempo de espera. Num país que não é o meu, teria de pedir autorizações a mil mundos e.. aos pais... 
Sendo emigrante, num país em crise, os planos para ficar nesse país são inconstantes, ficamos mais um ano? ou ficamos mais uns meses, ou teremos de fazer as malas repentinamente e voltar para o país de origem.
Perante esta realidade, por muita vontade que tenha de adoptar o Pedrinho, qual o tipo de vida lhe posso proporcionar? Uma vida a viajar por países que ainda não estão em crise? Qual a educação que lhe posso dar? Qual o conforto que lhe posso oferecer? Após responder a estas lixadas questões, a resposta é sempre uma, não tenho condições para adoptar uma criança.

Sei que por enquanto não vou poder adoptar, mas sei que um dia, um dia, eu voltarei e levarei um Pedrinho comigo que precise de mim e queira ser cuidado por mim. Não importa somente nós querermos cuidar da criança, o inverso também tem de acontecer.
Ou simplesmente, adoptarei no meu país, onde os processos de espera estarão mais leves e fáceis, espero eu.

Ass.: Dora Sintra.




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